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A Solidão do Gol
10/12/2007 - 10:58 hs -
 
O goleiro, todo mundo sabe, ocupa uma posição singular no futebol. É o único que pode pegar a bola com as mãos e que veste uma camisa diferente. É tão único que, geralmente, leva nas costas o número 1. Mais que isso: apesar de ser muitas vezes o galã solitário por quem as mulheres suspiram, o goleiro tem algo de feminino, pois toma conta da casa, da "cozinha", enquanto os homens saem para a luta. Seu gol deve ser defendido como uma cidadela de pureza. É a "casa da viúva", na expressão saudosa de um radialista.
Além disso, o goleiro é um telúrico: enquanto os companheiros pisam a terra com firmeza e até brutalidade, ele se espoja na grama, ajoelha-se, deita e rola.

Por esses e outros motivos, o goleiro tem uma visão diferente e privilegiada do jogo de futebol. Mas não só. Como nos mostra o livro Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, do jornalista Paulo Guilherme, a posição de arqueiro no mais das vezes implica uma perspectiva diferenciada diante do mundo e da vida. Não por acaso, homens especiais como Albert Camus, Vladimir Nabokov e "Che" Guevara foram goleiros nos anos de formação.
O livro é um trabalho original e de fôlego. Numa linguagem objetiva e elegante, faz o inventário dos grandes goleiros da história do futebol, com destaque para os brasileiros, mas sem esquecer legendas estrangeiras, como Carbajal, Yashin, Banks e Sepp Maier, articulando de maneira muito hábil as trajetórias individuais ao contexto esportivo, social e cultural de cada época.

São histórias trágicas, cômicas, épicas, quase sempre destacando a condição do goleiro como um outsider, um ser à margem. Nelson Rodrigues intuiu a condição tragicômica do guarda-metas quando disse que "a poesia do futebol está no frango". O frango é o momento em que o goleiro expôe ao mundo a fragilidade humana diante do destino. O ofício do goleiro é como o do artista da corda bamba. Um passo em falso pode significar a queda fatal e definitiva.

O caso mais célebre e doloroso dessa condenação é o de Barbosa (1921-2000), grande goleiro do Vasco e da Seleção Brasileira, que ficou marcado com o estigma de uma pretensa falha no segundo gol do Uruguai contra o Brasil, na final da Copa do Mundo de 1950. Não importaram as defesas prodigiosas de toda uma carreira: por meio século Barbosa carregaria a cruz da derrota brasileira.

O fato de Barbosa ser negro certamente teve seu peso nessa condenação. Como mostra Paulo Guilherme, ainda hoje se observa no Brasil uma resistência à ocupação desse "cargo de confiança" pelos negros. Embora alguns arqueiros tenham feito história, e o atual titular da Seleção Brasileira (Dida) seja negro, a discriminação é visível.

"Se quem engole o frango é um goleiro negro, as críticas não recaem sobre suas deficiências técnicas, mas sobre a cor de sua pele. Não levou o gol por ser ruim, por estar desatendo ou por ser 'frangueiro': tomou o frango porque é negro, não é confiável", escreve Paulo Guilherme. Quem costuma freqüentar as arquibancadas brasileiras saberá lhe dar razão. Mas não se trata de um livro "denúncia", e sim de uma releitura da história do futebol a partir da perspectiva de quem vive de tentar impedir o momento orgástico do gol.

Um dos aspectos mais belos destacados pelo autor é o senso de retidão e responsabilidade que caracteriza inúmeros goleiros. Um exemplo comovente é o de Castilho (1927-1987), grande arqueiro do Fluminense e da Seleção Brasileira, o homem que levou o então garoto Chico Buarque a torcer pelo tricolor carioca. Em 1957, ele foi alertado pelos médicos de que precisava fazer uma cirurgia no dedo mínimo da mão esquerda, calcificado torto depois de quatro fraturas. Se fosse operado, seria obrigado a ficar três meses sem jogar, ficando de fora do Campeonato Carioca daquele ano. Castilho não teve dúvida: mandou amputar o dedo e na semana seguinte estava em campo, defendendo o Fluminense.

Anos depois, quando seguia uma carreira bem-sucedida de treinador, às vésperas de partir para os Emirados Árabes Unidos para dirigir um time local, Castilho se suicidou, chocando o mundo do futebol. Ninguém entendeu o gesto extremo. A solidão do goleiro às vezes é insondável.

Carta Capital - 26 de abril de 2006 - página 56 A envolvente saga dos homens cujo ofício é impedir o momento supremo do futebol

Por José Geraldo Couto
Publicado: Debora Diniz